A mulher e o períneo

06/01/2012

Controle da bexiga

Filed under: Fisiologia da micção — A mulher e o períneo @ 7:26 pm

Olá, vamos conversar um pouquinho agora sobre o controle neurológico da bexiga.

Já aprendemos que quando bebês o ato de urinar é reflexo, ou seja, a bexiga vai enchendo e conforme se distende manda esta informação pra medula, de onde volta um comando pra bexiga contrair e o períneo relaxar. E que depois vamos adquirindo controle voluntário sobre isso.

micção com fonte

 

 

Hoje vamos aprender com mais detalhes como funciona.

O Sistema Nervoso humano é bastante complexo e precisaríamos de várias aulas pra entender seu funcionamento completo.

 

spine-257870_1280 X

O objetivo aqui é apresentar de maneira simplificada suas divisões para que todos possam entender, com ênfase no mecanismo neurológico de controle da bexiga.

 

Nosso Sistema Nervoso é dividido em  Sistema Nervoso Central (SNC) e Sistema Nervoso Periférico (SNP).

SN com fonte

 

O SNC é formado pelo encéfalo e pela medula espinhal.

O SNP é formado pelos nervos que saem da medula.

 

SNC e P com fonte
Aqui temos uma ilustração mais detalhada do Sistema Nervoso Central. Estamos acostumados a falar em cérebro, mas o cérebro é apenas uma parte de um conjunto de estruturas importantes que formam o encéfalo. Essas estruturas estão descritas ao lado, juntamente com a medula espinhal.

anatomia com fonte

 

 

O Sistema Nervoso Periférico é dividido em dois: SNP Somático e SNP Autônomo.

SNP com fonte
O SNP Somático é responsável por conduzir as informações do cérebro para os músculos esqueléticos. Assim tem relação com atividades voluntárias.

O SNP Autônomo é responsável por conduzir a informação do cérebro para as vísceras (músculos lisos) e para o músculo do coração. Tem, assim, relação com funções involuntárias.

 

 

O cérebro funciona, então, como um computador central e a medula seria seu cabo principal de entrada e saída de informações. Ao longo deste cabo vão ocorrendo ramificações, que representam os nervos periféricos (somáticos e autônomos). Primeiro saem nervos mais grossos, que também vâo se ramificando, formando uma rede de informações.

As ramificações finais atingem milhares de estruturas do corpo e mandam informações delas pro cérebro, que as processa (sob influência das demais partes do encéfalo), toma decisões e as envia de volta.   Assim acontece constantemente todas as atividades do corpo humano.

 

Agora que já tivemos uma visão geral e simplificada de como funciona nosso Sistema Nervoso vamos começar a falar sobre o controle neurológico da bexiga.

bexiga urinária com fonte
Lembrando que a bexiga é formada pelo detrusor, que é um músculo liso. Assim deve sofrer alguma influência do SNP Autônomo. Então, vamos falar mais um pouquinho sobre esse sistema.

SN autônomo com fonte

O SNP Autônomo é dividido em Simpático e Parassimpático. Acima estão algumas das atuações de cada um deles. Como tem atuação em musculatura lisa, é reponsável por atividades involuntárias do nosso corpo, ou seja, em situações que não temos controle voluntário. Perceba que o Simpático é responsável pelo relaxamento da bexiga e o Parassimpático por sua contração.

 

Aqui podemos ver duas regiões importantes da medula. A região entre T 10 e L2 (segmento tóraco-lombar da medula), que está sob influência do SNP Autônomo Simpático. E a região entre a S2 e S4 (segmento sacral da medula), que sofre influência tanto do SNP Autônomo Parassimpático como do SNP Somático da região de períneo.
centro da micção com fonte

 

 

Lembrando quando a bexiga está enchendo o detrusor está relaxado e a musculatura periuretral está contraída. Nesse momento o parassimpático está inibido e o simpático está ativado.

Quando vamos urinar o parassimpático deixa de ser inibido e começa a atuar. Nesse momento o simpático é desativado. Ocorre relaxamento de períneo e esfíncter uretral e contração do detrusor, com saída da urina em jato.

 

Veja em “Como fazemos xixi”.

Recordando que quando bebês esse mecanismo todo ocorre de forma reflexa. A bexiga distende e manda informação pra medula de onde parte o comando que leva à micção. Conforme vamos crescendo somos estimulados a controlar esse ato de urinar. Nesse momento o cérebro passa a atuar como modulador dos sistemas simpático e parassimpático.
A bexiga  vai enchendo e os receptores dentro dela vão sendo estimulados. Essa informação é passada pelos nervos aferentes da bexiga para a medula. Agora, ao invés de simplesmente voltar um comando de contração do detrusor e relaxamento dos músculos periuretrais de forma reflexa essa informação sobe até o encéfalo. Nada acontece até que o cérebro permita. Assim, o parassimpática permanece inibido e o simpático ativado.

clip_image010_thumb[1] com fonte

 

Quando temos a sensação de bexiga cheia vamos decidir, conscientemente, qual é o momento de urinar. Caso tenhamos possibilidade vamos ao banheiro e decidimos que é o momento. Neste instante o cérebro manda uma informação para a medula, liberando o parassimpático e desativando o simpático. É quando relaxamos a musculatura de esfínter uretral e períneo e reflexamente ocorre contração do músculo da bexiga, com saída da urina em jato.

Assim que o esvaziamento da bexiga se completa o parassimpático imediatamente é ser inibido e o simpático volta a prevalecer.

 

O cérebro é o principal comandante desse sistema. É ele que recebe a sensação de plenitude da bexiga e que toma as decisões. No entanto, sofre influência das demais regiões do encéfalo. E isso é importante saber para entender alguns sintomas e algumas orientações mais pra frente.

 

 

Existe uma estrutura chamada cerebelo. Veja ao lado sua localização na parte posterior da cabeça. É reponsável pela nossa coordenação, pelo nosso equilíbrio e controle postural durante os movimentos.

O cerebelo interfere no mecanismo de micção. Precisamos ter coordenação para relaxar o esfíncter no momento necessário. Além disso precisamos estar numa postura confortável para urinar adequadamente. Agora imagine a mulher que urina em pé, meio agachada, toda tensa em um banheiro público. Fica difícil pro cerebelo manter essa postura e a coordenação.

 

 

 Outra região importante do cérebro relacionada com a micção é o sistema límbico, que é formado pelas estruturas descritas ao lado.

O sistema límbico está relacionado com as nossas emoções.

Vocês conhecem alguém que quando fica emocionado urina nas calças, ou que quando está nervoso tem que ir correndo ao banheiro? Ou quando vai fazer aquela prova ou passar pela entrevista decisiva de emprego fica com o controle da bexiga todo alterado?

É o sistema límbico que está atuando.

Bastante complexo, não é? Mas essas informações são importantes para que mais pra frente possamos entender como são as disfunções urinárias, porque seguir algumas orientações e para que servem alguns tratamentos.

Tenham uma ótimo começo de ano. Qualquer dúvida é só escrever.

9 Comentários »

  1. […] alteração neurológica pode alterar o funcionamento adequado da bexiga. Lembre do controle neural da bexiga visto anteriormente. Assim situações como um AVC, um trauma na medula, a Esclerose Múltilpla, […]

    Pingback por Incontinência urinária « A mulher e o períneo — 29/01/2012 @ 11:07 pm

  2. Tenho incontinencia por esforço, sintomas apareceram no período do climatério, há 2 anos. Ja fiz várias seções de fisioterapia(20) e permaneço com IUE. Quando ou qual é o momento de optar por cirugia? Porque não suporto mais essa situação dos constrangimentos. Tenho 48 anos, duas filhas de parto cezariana (22 e 19 anos de idade), a frequencia dos episódios reduz enquanto faço a fisioterapia parando ou seja completando as seções, td recomeça, o xixi na calcinha ( tosse, espirro, peso, risadas…) e em alguns momentos seguidos de gases ´. Aguardo resposta, obrigada

    Comentário por Veronica Viana — 19/03/2012 @ 5:39 pm

    • Olá, Veronica.
      O momento da cirurgia deve ser discutido com seu médico e vai depender de vários fatores. A fisioterapia pra incontinência de esforço, bastante relacionada com fortalecimento e coordenaçao de assoalho pélvico, é um tratamento de resultados a médio e longo prazo. Pense que são músculos que nunca foram trabalhados, sendo assim necessário um certo tempo para que ganhem uma função adequada. Geralmente os resultados começam a aparecer após uns dois meses do tratamento, que pode durar cerca de seis meses. Além disso, pelo seu relato de melhora durante a fisioterapia e volta dos sintomas após, parece-me que os exercicios não estão sendo mantidos. Vamos de novo lembrar que são músculos. Assim como quem vai pra academia se parar de malhar perde toda a força muscular adquirida, se você deixar de realizar os exercicios todo o ganho que obteve na fisioterapia, em termos de força muscular, também regride. Assim os exercícios devem ser incorporados como rotina sempre.
      No entanto, algumas pessoas não tem regressão suficiente dos sintomas apenas com fisioterapia. Converse com seu médico e com seu fisioterapeuta. Juntos discutam se você já está com uma força de perineo adequada e com a coordenação suficiente para contrair esfincteres em momento de aumento de pressão intra-abdominal (tosse, espirro etc), ou se ainda precisa trabalhar mais isso. Veja pelos seus exames se você tem apenas fraqueza de perineo ou alguma outra alteração estrutural, como um prolapso (bexiga caida) ou hipermobilidade uretral, por exemplo. Dependendo do caso a cirurgia pode se fazer necessária.
      Espero ter ajudado por enquanto.
      Vou escrever bastante sobre Incontinência Urinária de Esforço aqui no blog ainda.
      Abraço,
      Samantha

      Comentário por A mulher e o períneo — 19/03/2012 @ 8:40 pm

  3. […] Urinária é grande em idosos. Isso porque com o envelhecimento a flacidez aumenta, assim com o controle neural sobre os músculos diminui.  Os músculos estão mais atrofiados e o sistema nervoso não é mais […]

    Pingback por Incontinência Urinária de Esforço – Teoria integral e fatores de risco « A mulher e o períneo — 21/03/2012 @ 12:34 am

  4. Rafael,do Rio de Janeiro,Eu estou na pre-adolecencia e eu estou ainda urinando na cama. O que eu devo fazer?

    Comentário por Rafael — 29/08/2012 @ 3:48 pm

    • Olá, Rafael

      A enurese noturna (urinar na cama) geralmente é tratada com terapia. Então, seria aconselhável você procurar um psicólogo experiente no assunto. Existem alguns alarmes que podem ser utilizados a noite, que despertam a pessoa no momento em que ela começa a urinar, que pode ser um tratamento caso haja indicação (converse a respeito com o terapeuta). Você ainda passa com pediatra? É importante também sempre deixar o médico que te acompanha ciente dos seus hábitos urinários.
      No entanto, você já pode começar a adotar algumas medidas que podem ajudar. Evite tomar líquido duas horas antes de dormir e urine antes de deitar.
      Atenciosamente
      Samantha Rizzi

      Comentário por A mulher e o períneo — 29/08/2012 @ 10:32 pm

      • Obrigado por tudo

        Comentário por Rafael — 30/08/2012 @ 3:01 pm

  5. Boa noite, gostava de saber o que pensa acerca disto:

    Faz agora um ano comecei a ter que frequentar mais vezes a casa de banho para urinar, no início nem me apercebia que andava a ir demasiadas vezes, mas uma vez que as aulas começavam, todas as aulas eu tinha que ir à casa de banho, não sei se posso chamar incontinência visto que eu aguento, mas preciso de ir à casa de banho imediatamente, não sei se estivesse numa situação de não ter casa de banho o que poderia acontecer. Não se consegue diagnosticar o que tenho e começo a pensar que seja psicológico e tenho cada vez mais medo que seja pior do que físico.

    Comentário por Ana Marques — 06/08/2013 @ 6:24 pm

    • Olá
      A frequencia urinária aumentada (ir mais que 8 vezes por dia ao banheiro) é um dos sinais de urgência micional. Incontinência de urgência é quando você perde urina após uma vontade repentina de urinar. Se não perdeu urina, não é incontinência. No entanto, não é normal ir tantas vezes ao banheiro.
      Infecções urinárias podem causar frequencia urinária aumentada. Caso você já tenha feito exame de urina e não tem infecção pode-se pensar em sintomas de bexiga hiperativa. Não é psicológico, mas pode ser comportamental. Aliás, um dos tratamentos da urgência miccional é a terapia comportamental. Beba água (pois a bexiga com urina muito concentrada pode ficar irritada), evite cafeína, evite álccol e alimentos cítricos. Evite urinar por “prevenção”, por exemplo, antes de sair de casa. Tente aos poucos espaçar o tempo entre as idas ao banheiro. Gradualmente.
      E procure um urologista. Um exame chamado “Estudo Urodinâmico” pode detectar se sua bexiga está hiperativa. Uma vez diagnosticado, o tratamento com Fisioterapia uroginecóliga tem bastante efeito positivo em Bexiga Hiperativa.

      Comentário por A mulher e o períneo — 26/09/2013 @ 10:04 pm


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